Sobre a falácia da falta de Engenheiros… (Parte I)

Em artigo (Entendendo a falácia da falta de engenheiros no mercado) datado de 04/07/2013, publicado no blog ExatasMentes, o colega Eng. Luciano Netto de Lima, abordou a questão da falácia sobre a falta de engenheiros no mercado.

Citando o artigo, Luciano diz:

“As principais revistas e jornais vem anunciando incessantemente a falta de engenheiros no Brasil. Porém, para os engenheiros, desde os recém-formados aos que tem 25 anos de experiência, é um consenso que esta informação não confere no cenário nacional. Diante desta situação fica a dúvida: Que escassez é essa?

Este assunto vem dá margem a uma série de textos, porém vou focar no aspecto mais imediato deste desencontro entre empresas, recrutadores, profissionais e jornalistas. Basta uma pesquisa rápida na internet para encontrar as tão famigeradas vagas disponíveis para engenheiros e começar a entender a situação.”

Nesse momento, eu peço uma pausa para a reflexão. O que o Luciano quer nos mostrar é algo muito grave. É uma conjunção maldita de interesses públicos e privados com um único objetivo: fazer com os engenheiros, o mesmo que o Governo Federal vem fazendo há algum tempo com a área da saúde e que culminou com o programa “Mais Médicos“.

Mas o que eu quero dizer com isso? Vamos prosseguir com a análise do texto do nobre colega…

Adiante, Luciano prossegue:

“Primeiro, é preciso que as empresas entendam que um engenheiro mecânico possui a denominação profissional de engenheiro mecânico, e isso somente. Não existe qualquer referência no CREA a engenheiro mecânico com experiência em calibração de instrumentos de precisão expostos a ambiente corrosivo.

Portanto, um engenheiro mecânico que trabalhou por 10 anos em calibração de instrumentos de precisão em ambientes explosivos tem total capacidade de atuar na área de ambientes corrosivos também. De forma mais direta, qualquer engenheiro mecânico será capaz de trabalhar nesta área, após o devido treinamento. É por isso que ele estudou por 5 anos, e por este mesmo motivo o preço pela sua hora de trabalho tem o valor que o CREA estipulou. Se a empresa treinou, ganhou um profissional capaz.

Pelo sistema CONFEA/CREA, o piso salarial de um engenheiro varia de 6 a 8,5 salários mínimos (Lei 4.950-A de 1966). Nos valores atuais (meados de 2013) equivale a R$ 5.414,00 (*). As empresas insistem em recusar esta realidade a ponto de configurarem, a grosso modo, quase um cartel salarial. Se ninguém paga o valor pedido, ninguém vai poder exigir barganhando que outra ofereceu.

Agrava-se o fato de que pouquíssimas das vagas de recém-formados abrangem este salário. Por outro lado, é ponto comum nos requisitos para vagas de engenheiros a tríade experiência anterior, inglês fluente e experiência em liderança. Sem muito esforço, é natural perceber que citar recém-formado na mesma frase que experiência anterior é no mínimo, mau gosto.

Portanto, o mercado está superaquecido para profissionais com experiência, correto? Infelizmente não.

Porque se é para preencher uma vaga, a preferência vai para quem tem experiência exatamente naquela área específica. Se este profissional não é encontrado, outro profissional com 15 anos de experiência em uma área ligeiramente distinta também não é uma boa escolha, pois está “velho demais para aprender truque novo”.

Mas caso haja a continuidade do desejo de preencher esta vaga com este profissional experiente, a vaga continuará fazendo jus à sua definição de lugar livre, quando durante a entrevista, o engenheiro com 15 anos de experiência, inglês fluente, espírito de liderança, capacidade de lidar em equipe, domínio do pacote Office, Autocad, programação em Visual Basic e residindo próximo ao local de trabalho, se recusar a trabalhar quando souber o valor do salário.”

Volto com novas reflexões. O que o nobre colega levanta aqui é a razão principal para o texto do mesmo. E aqui eu proponho a todos um questionamento muito importante, fruto da observação dos 5 anos e meio passados dentro da faculdade, (concluída já tem 1 ano e meio, e eu ainda continuo desempregado!), dos quais pude chegar a algumas interessantes conclusões.

Em primeiro lugar eu me questiono se as faculdades estão tão eficientes assim, a ponto de abrirem vagas para uns 80 a 100 alunos (as salas tem estado bem lotadas!) no 1º período e continuar mais ou menos nessa mesma média por 10 a 12 períodos, graduando ao final desse tempo e de quase 4000 horas aula, os mesmos quase 80 a 100 alunos. Pessoalmente eu acho que não (e não, eu não estou tomando a minha como parâmetro exclusivo de comparação – tem outras em situação muito pior, até mesmo entre as federais e estaduais!).

É no mínimo estranha toda essa eficiência, e isso me leva ao segundo questionamento: esses profissionais que estão chegando ao mercado estão se graduando adequadamente e recebendo a sua diplomação baseada em avaliação adequada de conhecimentos? É mais do que um fato inquestionável que a Engenharia, em todas as suas subáreas, sendo uma Ciência Exata, é eminentemente não-empírica, uma vez que é baseada em experimentos, análises, formulações e cálculos.

Mas ainda assim, a sua administração, principalmente no que diz respeito aos aspectos das relações humanas e da interpessoalidade, é de caráter eminentemente empírico, ou seja, consiste das experiências vividas, da observação das coisas, e não nas teorias e nos métodos científicos; ou seja, é adquirida no dia-a-dia, não tendo nenhuma comprovação científica.

Baseado nessa constatação damos seguimento ao texto do nobre articulista.

No parágrafo que se segue (Aprendendo para Fazer), Luciano ataca:

“Existe um ponto no qual as empresas brasileiras (incluindo as multinacionais aqui situadas) insistem em contrariar os teóricos da administração mais moderna: o investimento no capital humano. Dentro das metas de corte de custos, naturalmente se poda qualquer pensamento de investimento em capacitação.

Assim, é um cenário quase utópico imaginar uma empresa investindo por 1 ou 2 anos em treinamento para capacitar um profissional. Mas porque utópico? Porque nossas empresas, diante da necessidade de um profissional, consideraram mais econômico contratar o profissional da empresa em frente em vez de investir na formação do novo engenheiro.

Mas como é costume se adotar a solução mais conveniente, a empresa que teve o seu profissional abduzido, aprendeu também esta manobra. Assim, como segue a escalada natural da oferta x demanda, os salários deste profissional irão aumentar até o ponto em que ninguém mais estará disposto a arcar com aquele valor. Então o que acontecerá?

Passarão a contratar os recém-formados e investir em seus treinamentos? Não. Se não há engenheiro com experiência no mercado e a empresa não tem uma política pré-existente de capacitação – pela simples falta de necessidade anterior- ela irá dizer que faltam profissionais, divulgar isso nas revistas e dizer que precisam de profissionais e estes estão lá de fora.

Alegando que falta mão de obra no Brasil. Mas não, não falta mão de obra aqui. Falta mão de obra treinada, lê-se, que não necessita de investimento. E esta sim, lá fora tem mais do que aqui, afinal, a Europa está em crise.

É possível começar a se perceber o que o nobre colega está tentando levantar com essa questão? Não? Então vou meter o dedo na ferida de uma forma bem dolorosa: Estão tentando causar um colapso na oferta de vagas no país gerando uma oferta maior que a demanda, e cuja consequência mais cruel é a redução de custos para a empresa com a regulamentação e o nivelamento dos salários abaixo da média.

Vocês duvidam? Então tá.

Para aqueles que como eu, estão buscando uma recolocação urgente no mercado, eu proponho um desafio: avaliem quantos currículos foram enviados por vocês nos últimos 12 meses e me respondam:

  1. Quantos currículos foram respondidos?
  2. Quantas respostas foram positivas e levaram ao próximo passo (a famigerada entrevista)?
  3. Quantas promessas de retorno de contato foram feitas?
  4. Quantas efetivamente foram realizadas?
  5. Quantas vezes cada um de vocês não tiveram nenhuma resposta dos currículos enviados?
  6. E finalmente: quantos foram peremptoriamente respondidos com um lacônico agradecimento pela participação no processo de seleção, lamentando que infelizmente você não participará mais do mesmo, sem sequer lhe informar o porque você está sendo rejeitado?

Depois de postarem suas respostas eu publicarei a segunda parte da análise do texto, apresentando minhas demais conclusões sobre o mesmo…

Até o próximo texto!

Abraços!

(*)  Em valores atuais (fevereiro de 2016) isso varia na faixa de R$ 5.622,00 (6 mínimos por 6 horas/dia) a R$ R$ 8.433,00 (8,5 salários mínimos por 8 horas/dia). Para conferir clique aqui.

Texto publicado originalmente no Linkedin Pulse em 08 de agosto de 2015. Atualizado em 16/02/2017

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